Por onde anda Deus?

Uma pergunta tão comum .. quem nunca a fez na vida? Os que creem è os que não creem e os que têm dúvidas … e todos temos dúvidas, mesmo diante das nossas verdades .. pq .. o que é a verdade? Mas, especialmente, em meio a uma epidemia a pergunta pode voltar como uma maneira de se encontrar uma resposta para a “ sensação “ de abandono que um “ inimigo invisível” pode provocar e pela prisão que isso tem “ determinado” na vida das pessoas. Prisão domiciliar .. ou prisão emocional .. O desejo de se religar a um salvador ou de questionar a existência é comum … não temos um “ homem aranha ou algum super herói “ para descer e acabar com a confusão, nem temos um “ papai Noel” fora de época para nos confortar com um presente … temos a realidade que nos aponta para a espera de soluções vindas da comunidade científica e do trabalho conjunto da população e equipes profissionais de diversas áreas da saúde e da segurança pública. Deus ? Está onde sempre esteve .. e nada tem a ver com as nossas doenças, com as nossas catástrofes naturais, com nossos desafetos,,com nossas ambições, com a nossa capacidade de amar. Somos responsáveis por nossas escolhas e consequências.. não somos autores de uma epidemia .. mas autores de nossas vidas.. e as nossas vidas continuam a correr .. e talvez seja uma oportunidade de reflexão sobre nossos planos de existência, lembrando que eles podem ser suspensos contra o nosso desejo e temos só o tempos presente, enquanto Deus é atemporal. Kátia Del Porto

Soterrados

Há muito tempo temos problemas com enchentes e afins no Brasil. Hoje, de manhã, eu ouvia o rádio e fiquei paralisada com as notícias sobre os soterrados no litoral paulista. Ao todo 70 pessoas desaparecidas .. Sabe o que penso sobre isso? As pessoas estão sendo vistas como um número .. é claro que falei o óbvio ! o mundo não revela isso .. o mundo mostra explicitamente isso .. pq revelação é algo de maior importância, é algo que nos surpreendemos .. O que acontece conosco ? Eu fiquei paralisada com a notícia e não fiz mais nada … até decidir escrever algo sobre isso.. O que podemos fazer ? afinal .. são tantas demandas… Podemos nos debruçar nas janelas e portas e telefones e computadores .. e mídias de todo tipo e pedir para que as pessoas voltem a olhar para os que não são seus próximos ….como se fossem… que voltem a olhar com a empatia e generosidade que olharíamos se fossem nossos filhos .. sempre penso que a medida de nossa conduta seria não fazermos para o outro o que não gostaríamos que fizessem para nós … sim! é quase um clichê, é meio bobo, é meia verdade .. mas funciona … e funcionaria muito bem se todos nós pensássemos assim.. Como é possível pessoas viveram em condições subhumanas ? Como é possível um filho ser soterrado ? É possível … desde que não seja o nosso .. é possível desde que a situação do outro não nos incomode .. concretamente .. podemos tentar reativar nossos valores, divulgar nossa indignação, tirar o automático… e sentir que se o nosso coração pulsa pela dor do outro …ainda resta a esperança de mudança .. um coração que pulsa pelo outro não anda sozinho na vida … é um coração que sabe sobre solidão e sobre amor, e que compreende a nossa origem comum .. somos um.. sempre seremos um.. não importa a classe sócio econômica cultural … não importa a raça e nem a inclinação sexual … somos um .. mesmo se não quisermos .. não depende do nosso querer… vamos passar na vida … apenas passar … todos nós passaremos … soterrados ou sentados no camarote de onde vemos o melhor que uma cidade pode nos oferecer com uma taça nas mãos brindando o que conquistamos da chamada felicidade. Kátia Del Porto

No táxi

Gosto de conversar .. e isso é inegável .. mas conversar com motoristas de táxi é algo especial para mim.. digo .. motorista de táxi, dos antigos .. os que estão na praça há 30, 40 anos .. Eles tem tantas histórias para contar .. eles são ouvintes, testemunhas, terapeutas.. uma mistura de tudo .. veem a vida através do retrovisor .. Já imaginaram qual seria o nosso retrovisor ? aquele espelho que revela o nosso passado para nós mesmos …o passado que somos obrigados a ver para seguir em frente .. não é “ aquele “ passado que devemos “ até” esquecer .. é o passado que transformará o nosso presente em algo bom.. Então … hoje .. eu ouvi o relato de um motorista sobre o local onde ele costuma almoçar .. e conforme ele descrevia o prato… eu sentia um apetite estranho crescer em mim .. apetite pelo entusiasmo em viver ! Sim, ele estava entusiasmado com o prato que iria repetir .. pela milésima vez .. Na verdade ele tinha apetite pela vida ! E eu.. perguntei sobre o local exatamente onde ele almoçaria .. detalhes .. mas no fundo a minha pergunta era outra .. era sobre como ele encontrava algo especial em algo banal .. Bem.. eu sei .. e talvez vocês também saibam .. que a vida é só isso … ou tudo isso .. que a relação com as coisas e com as pessoas é só uma ponte para estarmos em conexão com a dádiva que é viver. Kátia Del Porto