A morte por mais um dia

A morte não é inimiga do homem. Ela aparece feia nos quadrinhos, demonizada por toda parte, ora é castigo, ora é alívio… pode ser tb promessa, pesadelo, merecimento ou não, pode vir cedo ou tarde na vida. Se vem cedo é uma tristeza, uma tragédia, se vem tarde é um presente de Deus. E todas as causas da morte são estudadas através da ciência … mas a pergunta que muitos fazem é sobre o que vem depois daquilo que evitamos pensar, que empurramos para frente o quanto podemos .. As religiões prometem a eternidade como conforto… os ateus aceitam que o tempo de vida é finito. E se mudarmos o modo de nos relacionar com o tempo ? É certo que morremos a cada dia, um dia a menos hoje para mim e para você.. Mas não é certo que o modo de dividirmos o tempo é o único modo.Se não existisse a sensação de passado e de futuro, não existiria ansiedade e nem as lembranças. Não podemos passar por cima de uma função cerebral chamada memória, mas podemos olhar para o tempo sem estar no tempo. Isso traria a percepção de estar vivo mesmo morto, pq não temos como separar essas duas condições, a não ser por um corte no tempo ( o dia que fechamos os olhos e o cérebro). Estar fora do tempo exige de nós desapego às coisas do mundo. A casa está lá, usufruimos dela assim como todos os outros objetos . As pessoas estão lá, nos relacionamos com elas. Mas a sensação de pertencimento buscada para validar a presença no mundo é um truque que custa caro. A busca de recursos para sobreviver e para se desenvolver tende a ser cada dia mais exaustiva e complexa. Buscar isso tudo se sentindo parte de um todo muda a visão sobre o que é viver somente para mim e o que é viver para o todo. Hoje dia dos mortos, talvez seja o dia de todos nós. Os que não vemos mais estão vivos de algum modo. E nós, vivos, estamos mortos de algum modo. O ponto de encontro entre o que vemos e o que não vemos está na crença que construímos sobre precisar ver e tocar para “ ter”, se não vemos nao “ temos”. Quando escolhemos nos separar de alguém e nunca mais vemos essa pessoa, escolhemos a morte dela dentro de nós. Os que sentem a falta de tocar os que não viram mais, escolham a vida dentro de si mesmos e eles estarão lá de onde não partiram. Que a saudade seja sempre o caminho de olhar para dentro de nós e encontrar quem procuramos.

Katia R O Del Porto

Instagramável

Auto crítica é muito na vida ! Excesso dela nos inibe … a falta dela nos faz passar vergonha! Espero que a minha inibição tenha sido maior do que a vergonha que posso ter passado frente aos meus míseros seguidores . Instagramável é uma palavra, adjetivo ?, que significa: vale a pena postar … vai dar o que falar … aumentará seguidores, etc

Eu me pergunto o que aconteceu com o mundo ou não estou acompanhando bem ? Sou da época das cartas, telegramas, telefonemas… Hoje a frase antiga que dizia “ quer aparecer pendure uma melancia no pescoço “ está ultrapassada … melancia não chamaria a atenção de ninguém perto do que são as propagandas em todas as áreas profissionais ! É muito interessante notar como as pessoas selecionam os seus influenciadores pessoais ou como influenciam os seus possíveis seguidores. Mais interessante ainda é pensar porque fazem isso. Penso que a tendência é procurar ouvir o que gostariam de ouvir e falar o que que os outros gostariam de ouvir, dessa maneira nada se modifica e os egos são alimentados. Mas não é só isso… o mundo virtual tem tentado banir a solidão da existência humana …A impressão é que sempre há uma companhia para cada momento, basta clicar ali ou aqui.

Eu devo dizer que blog é algo totalmente fora de moda…ao contrário de pod cast…nosso antigo rádio …Tudo que for mais fácil, mais rápido será mais consumido. Mas … para além de nós ( humanos) tudo morre um dia …e o esforço que o Homem tem feito para ser reconhecido, ao invés de fazer a diferença em seu cantinho, é brutal. Morrerá o Homem, morrerá o esforço por reconhecimento e morrerá o excesso de mídias sociais … logo estaremos de volta aos nossos lápis e canetas e contentes com nossa solidão. Solidão que nos preserva e nos torna únicos em um universo onde ser o outro parece bem atraente.

O que é preciso ?

O que é preciso para viver ? A vida existe antes de eu existir e continuará após a minha morte.

Eu sou vida ! Você é vida ! Antes de ser quem sou, sou vida … Me surpreende quem precisa de tanto para viver ! Talvez muitos entendam a vida como um amontoado de coisas acumuladas : casas, carros, roupas, títulos, projetos etc etc .. quase sempre, infelizmente, material…Não vamos negar que precisamos de recursos para sobreviver, para manter nossa saúde física e mental em um mundo egoísta à beça ! Onde quem tem mais acha ( via de regra ) que pode mais ! Afinal o dinheiro só não compra o amor verdadeiro ( dizia Nelson Rodrigues ). Mas que vida falsa é essa ? Que valores invertidos são esses que ditam costumes caros e inatingíveis para a maioria das pessoas … com promessas de escaladas sociais … A pergunta que repete em mim é: Para que alguém quer voluntariamente dizer ao mundo que existe através de objetos ? É triste, no meu entendimento, o espírito, a alma, a mente ou, como queira chamar, aquilo que está para além da matéria ser neglicenciado e vestido com ouro e prata e não com amor. E esse texto é chover no molhado pq diz que amor salva. E pq as pessoas gostam de textos que dizem isso? Talvez pq precisem ser lembradas que conseguem, que não podem desistir de tentar amar com todas as forças e se vestir do amor para sair por aí …. amor esporte fino, amor casual, amor chique ..: e amor nú, que é sempre o mais puro #vida#sentidoexistencia#amor

. Katia R Oddone Del Porto

Você gosta do seu trabalho?

O trabalho dignifica o homem, dizia Max Weber. Do latim tardio trabalho nasce da palavra tripalium, que significa tortura. Se juntarmos essas informações, dentre tantas outras, como poderia a tortura dignificar o Homem? Ser digno seria ser merecedor de algo, a tortura faria o Homem merecer seu alimento? Sua casa ? Suas roupas ? Sua vida ? A associação com a escravidão ou mesmo com o salário nos remete a falta de liberdade. Trabalhar é exercer uma atividade contínua, rotineira que, via de regra, mantém o desenvolvimento das pessoas, a evolução da sociedade e da história. Para além da necessidade do dinheiro, o trabalho deveria ser a necessidade de realização pessoal na passagem transitória pela vida. Por essa razão a escolha do objeto de trabalho poderia estar intimamente ligada à qual sentido o Homem atribui a sua existência. Ocorre que liberdade de escolha não é possível para a grande maioria das pessoas no mundo as quais trabalham para sobrevivência e não para realização pessoal. Porém não é verdade que a falta de liberdade retira o prazer ou a vivência de liberdade. Isso pq mesmo sem a consciência de nossas escolhas nós escolhemos ! Ainda que não sejam escolhas validadas por nós no dia a dia. A simplicidade da pergunta :você gosta do seu trabalho não pode trazer uma resposta simples. Gostar não é algo superficial é profundo. Se quiser saber se gosta do seu trabalho precisará saber quem é você no mundo. Acreditar que trabalhar é uma tortura ou que dignifica o Homem ou ter um novo conceito sobre trabalho faz toda diferença em como se relacionar com essa atividade que nos torna gente.

Katia Regina Oddone Del Porto

Deixa estar

Deixar para trás não é uma decisão simples… exige de cada um de nós uma avaliação detalhada do que vale ou não vale a pena levar adiante na mala, no armário, na vida … Escolher as roupas para doaçao é uma tarefa árdua para os apegados a memória mais do que aos objetos materiais. A memória afetiva nos lembra da dança dentro do vestido, do perfume, do salão, do par … como se o vestido fosse tudo isso, como se o vestido fosse a gente … O vestido é a testemunha de uma época … assim como uma foto, um filme, uma carta …deixar para trás um amor é deixar milhões de vestidos que não cabem mais em nós. Deixar um amor é algo grande demais na vida de alguém. Entretanto está meio banalizado deixar um amor… Será que o sentido de viver o hoje significa deixar ontem para trás ? Ou seria não dar ao passado o lugar importante que possa ter no presente ? É irritante quando alguém quer contar uma história que viveu e alguém diz : vc tem que deixar isso para trás ! Mas quantas vezes uma história precisa ser contada não para ser esquecida mas para ser lembrada sem dor ? Refutar o passado é abrir mão da história construída até aqui, porém morar no passado nos impede de seguir em frente. Deixar para trás é seguir sabendo que podemos voltar para olhar quando quisermos pq a ideia de abandonar para sempre está longe de ser real, pois o sempre não existe. Katia Oddone Del Porto

O culpado

Ah o culpado … quem será ? A culpa é a busca pelo criminoso que vive em nós. Sabe quando a pessoa passa pelo detector de metais no aeroporto e apita ? E vem a culpa … sem ter razão .. Será que vão achar algo em mim que eu mesmo não sei o que seria ? O medo de ser preso em armadilhas desconhecidas, de ser exposto em algum tribunal.. Mas isso tem algo a ver com o pecado original descrito em Gênesis ? Simbolicamente sim. Sim pq o Homem tem consciência de seus atos e o que escapa da sua percepção pode acusá-lo por não perceber. Mas como acusar alguém por não perceber o que não estava explícito ? São truques da nossa mente … que a partir de um sistema de vigilância dispara alarmes sobre tudo que é estranho à nós mesmos. Esses alarmes se levados a sério podem tornar a nossa existência um amontoado de casos em investigação. Na verdade, a culpa é útil por nos fazer ver nossa limitações, erros e deslizes mas é inútil quando fabula contra nós e nos remete a uma espécie de mundo onírico onde o perseguidor somos nós, igual cachorro que corre atrás do rabo.

De quem é o tempo ?

De quem é o tempo que me apavora, me emociona, me impulsiona, me consome, me exalta, me traz e me leva, me provoca, me sustenta, me orienta …De quem é o tempo que passou, que estou, que me resta ? Se estou perto ele passa … se estou longe ele corre… que luta é essa que aos 56 não sei quem sou ? E se sei posso ter me enganado num equívoco sem fim que nos faz ver poucos lados … da nossa história … da nossa memória … Ahh … Não podemos nos enganar achando que a vida é nossa… pq nunca foi! Mas tb não é uma agenda ou um calendário que me convencerá sobre o tempo … O tempo fala conosco não sobre aproveitá-lo ou disperdiçá-lo, mas sobre esquece -lo! Esquecê-lo pq a nossa trajetória é uma linha contínua e o tempo não define quem somos e nem para onde vamos… ele olha calmante e pensa: Para onde pensam que vão olhando as horas e contando os dias de vida ?Deus é dono do tempo. Você pode parar em qualquer ponto do universo , pode sentir que tem tudo nas mãos, pode estar nas vitrines de qualquer escolha que vez na vida … mas se não reconhecer quem é dono do tempo será escravo das horas … Ou será liberto das horas para morar no Sempre. Não sei que idade tenho.

Quem acabou ?

É confuso quando um relacionamento se rompe … quem acabou? Ouvimos essa pergunta com muita frequência e nunca saberemos a resposta correta. Não há resposta correta, como tb não há resposta mentirosa. Quem consegue definir com exatidão o término de um relacionamento ? Parece estranho mas tenho me sentido assim em relação ao COVID. Passou a ser um relacionamento com a pandemia, literalmente. E ouço isso diariamente … Quem acabará com a pandemia ? Na verdade esse relacionamento, que numa espécie de jogo, querem terminar, só a OMS poderá decretar o término. Baseada em critérios científicos, epidemiológicos. Mas a saturação sobre a vivência da pandemia leva muita gente ao abandono dessa “ parceira” perigosa e desgastante. Ocorre que a falta excessiva de cuidados, em qualquer rompimento, gerará algum ônus. O litígio nunca foi a melhor forma de separação. É estranho pensar como cada um define a sua vida, o modo de viver … e como a mudança do modo de vida pode ser mais ameaçador do que a ameaça a extinção da vida sem a qual não haveria modo nenhum. Em outras palavras … a pandemia vai acabar , virão outras ( é o que dizem ), mas o modo da humanidade viver tem sido tão repetitivo, que talvez combater pandemias signifique buscar outro tipo de vida.

A DIFERENÇA

Em toda passagem de ano reside um encanto … mas nunca saberemos qual é. Atribuímos desejos aos próximos dias como se fogos, champagne, festas e todo o ritual de ano novo fosse ter o poder de transformar as vidas das pessoas. Pensamentos positivos, ondas puladas, embriaguez e oração. Seja o mar, o álcool, os ficantes das festas, Deus ou a lentilha … seja lá o que for, a impressão que sempre tive …é que essas supostas forças carregam homens e mulheres anos e anos na Terra perpetuando a espécie humana, mas são anos e anos que se parecem em muitos aspectos. A descoberta do rádio não tem a mesma importância que já teve, nem os nossos ascendentes … afinal, hoje, os algoritmos conduzem a vida da maioria de nós e como um rebanho sem pastor, cada ovelha não se contenta em ser ovelha … cada ovelha quer marcar ou monetizar sua presença no mundo, aliás na Terra. Mas continuamos a ser ovelhas … seremos esquecidos. A história que não vemos por completo é a que empurra o Homem para frente … essa história pode ser lida cada vez que olhamos para dentro de nós e dentro do outro. E fazendo isso silenciosamente recolhemos partes para compor a nossa história. Essa história invisível pode fazer do lugar em que vivemos um espaço digno para que gerações sejam recebidas com pratos de comida, vacinas, ar respirável, animais livres… ao invés de ensinarmos, logo cedo, aos nossos filhos o que é injustiça social. Quantos anos novos precisaremos para romper tantas diferenças ? Para que a esmola não seja filmada no Instagram como se fosse sinal da evolução e da bondade humana ? Quantos anos novos precisaremos para que o sentido da existência esteja menos nas coisas e mais nas pessoas ? Que o ano 2022 depois de Cristo nos faça pensar em quem passou há 2022 anos ou mais por aqui … e fez a diferença. Katia Oddone Del Porto