Quem acabou ?

É confuso quando um relacionamento se rompe … quem acabou? Ouvimos essa pergunta com muita frequência e nunca saberemos a resposta correta. Não há resposta correta, como tb não há resposta mentirosa. Quem consegue definir com exatidão o término de um relacionamento ? Parece estranho mas tenho me sentido assim em relação ao COVID. Passou a ser um relacionamento com a pandemia, literalmente. E ouço isso diariamente … Quem acabará com a pandemia ? Na verdade esse relacionamento, que numa espécie de jogo, querem terminar, só a OMS poderá decretar o término. Baseada em critérios científicos, epidemiológicos. Mas a saturação sobre a vivência da pandemia leva muita gente ao abandono dessa “ parceira” perigosa e desgastante. Ocorre que a falta excessiva de cuidados, em qualquer rompimento, gerará algum ônus. O litígio nunca foi a melhor forma de separação. É estranho pensar como cada um define a sua vida, o modo de viver … e como a mudança do modo de vida pode ser mais ameaçador do que a ameaça a extinção da vida sem a qual não haveria modo nenhum. Em outras palavras … a pandemia vai acabar , virão outras ( é o que dizem ), mas o modo da humanidade viver tem sido tão repetitivo, que talvez combater pandemias signifique buscar outro tipo de vida.

A DIFERENÇA

Em toda passagem de ano reside um encanto … mas nunca saberemos qual é. Atribuímos desejos aos próximos dias como se fogos, champagne, festas e todo o ritual de ano novo fosse ter o poder de transformar as vidas das pessoas. Pensamentos positivos, ondas puladas, embriaguez e oração. Seja o mar, o álcool, os ficantes das festas, Deus ou a lentilha … seja lá o que for, a impressão que sempre tive …é que essas supostas forças carregam homens e mulheres anos e anos na Terra perpetuando a espécie humana, mas são anos e anos que se parecem em muitos aspectos. A descoberta do rádio não tem a mesma importância que já teve, nem os nossos ascendentes … afinal, hoje, os algoritmos conduzem a vida da maioria de nós e como um rebanho sem pastor, cada ovelha não se contenta em ser ovelha … cada ovelha quer marcar ou monetizar sua presença no mundo, aliás na Terra. Mas continuamos a ser ovelhas … seremos esquecidos. A história que não vemos por completo é a que empurra o Homem para frente … essa história pode ser lida cada vez que olhamos para dentro de nós e dentro do outro. E fazendo isso silenciosamente recolhemos partes para compor a nossa história. Essa história invisível pode fazer do lugar em que vivemos um espaço digno para que gerações sejam recebidas com pratos de comida, vacinas, ar respirável, animais livres… ao invés de ensinarmos, logo cedo, aos nossos filhos o que é injustiça social. Quantos anos novos precisaremos para romper tantas diferenças ? Para que a esmola não seja filmada no Instagram como se fosse sinal da evolução e da bondade humana ? Quantos anos novos precisaremos para que o sentido da existência esteja menos nas coisas e mais nas pessoas ? Que o ano 2022 depois de Cristo nos faça pensar em quem passou há 2022 anos ou mais por aqui … e fez a diferença. Katia Oddone Del Porto

Passaporte vacinal

A infância é marcada por muitas coisas, a vacina é uma delas. O bebê recebe a primeira vacina ao nascer e segue o calendário até a adolescência e depois vida adulta. Eu não acredito que os pais que tem filhos pequenos não queiram que os mesmos tenham boa saúde, e me pergunto quantos não vacinam seus filhos ? Não tenho ideia desse número, mas essa estatística deve existir. Então me pergunto pq ? Os estudos científicos existem para nos amparar! Sem os estudos não teríamos tratamento para nenhuma doença. Imaginem a infecção hoje sem o antibiótico, ou a convulsão sem o anticonvulsivante, ou a cirurgia sem a anestesia … e assim por diante. Justamente a vacina que pode evitar uma infecção para qual não há tratamento, qual seria o argumento racional para evitá-la? Quem evita a vacina, evita todos os medicamentos que existem ? Entender que nosso organismo tem, naturalmente, como se defender das inúmeras doenças que possam nos afetar, é um entendimento legítimo, o que não é legítimo é supor que não haja limites para essa defesa, supor que nosso corpo seja dotado da onipotência de “ Deus”… Não conseguimos vencer a morte, mas conseguimos postergar, aliviar e tantas vezes evitar o nosso sofrimento e dos que convivemos em nossas casas e na sociedade. Quando se trata da prevenção de uma doença contagiosa não se trata de uma escolha individual. Uma criança, por ex, não tem condições de escolher e são os pais que escolhem por ela. E os pais teriam o direito de escolher não vacinar seus filhos ? São questões éticas que se impõem a cada um de nós. Nós compartilhamos um espaço chamado mundo. O mundo não é meu nem seu. Aliás o mundo é só uma rua que atravessamos para o “nada” ou para outro mundo. Que arrogância o Homem querer dominar esse espaço através de todo tipo de guerra, da desigualdade social e da luta por direitos individuais que não poderiam se sobrepor aos direitos universais. O passaporte vacinal é mais do que a liberdade para entrar em algum local, é o respeito pela vida do outro. Kátia R Oddone Del Porto

Eu, tu, o COVID, nós, vós e a CPI

 

 

 

 

 

A história conta e reconta ano após ano, século após século, as “ aventuras” humanas no mundo. E, como sabemos, tudo tem um preço, seja material, emocional mas sobretudo histórico. Se o tempo de vida que nos é ofertado não for bem empregado, passaremos pela vida sem contribuirmos para que outras gerações “ paguem “ um preço mais justo ou melhor. Mas o que faz o Homem repetir vícios?

 O COVID viu, entre nós, a oportunidade de nos comandar, de direcionar nossos passos, através da ameaça de nos  extinguir a cada dia. A CPI vê  a necessidade de buscar elementos reais que justifiquem as ações humanas favoráveis ou desfavoráveis à meta estabelecida pelos COVIDs, pq são milhares …  E nós? Nós, os replicadores de pensamentos e ações ? Qual o nosso papel ? A medida que a hierarquização da vida seja a “ da vida individual “ e não coletiva, que uma pessoa seja só uma pessoa, a vida se resumirá a vivos e mortos e para isso basta a estatística. Mas a medida que o João  seja nosso pai, irmão, amigo…a vida se resumirá em amor e o amor  corta o tempo e permanece ao longo da história. A repetição de vícios pelo homem, se deve a falta de amor,  ao excesso de vaidade, egoísmo, materialismo, que se opõem a maior virtude que é amar.

Temos um inimigo que veio levantar a bandeira dos inimigos que cultivamos em nós todas a vezes que nos esquecemos do “ todo” que pertencemos, e temos aqueles que tentam nos defender ao investigar os vivos em nome dos mortos, para que não sejamos números. O amor tem que vencer ao longo da história. Assim seremos eu, tu, o Amor, nós, vós e eles não precisarão existir pq o amor não precisa ser investigado.

 

Vacinada

Vc ainda escreve no girodafala? Faz tempo que não … mas vou escrever …

Fui vacinada. Saí atônita na primeira dose … desrealizada … Sabe quando acontece algo de grande impacto e demoramos para perceber ? Como acordar, de madrugada ou de manhã, de um sonho maravilhoso ou de um horrível pesadelo. Depois de uma semana tomei consciência de como o que é raro se torna estranho. A sensação de privilégio e de vergonha … Quem sou eu para ser já vacinada antes de tantos quando esses tantos deveriam ser vacinados? Mais do que isso … eu desejava uma vacina profunda que me imunizasse contra o que vejo e ouço nos jornais … Por onde passa a indiferença de alguns em contraste com o altruísmo de outros ? Por onde passa a necessidade de apego a “ falsas verdades “ que não são mentiras pq se vestem da capa sedutora da aparência ? Depois … veio a segunda dose … outro baque !!! E agora ? E depois disso ? Hoje… o depois tem sido depois e depois … Não que eu tenha perdido a esperança … ela me agarra de tal forma que dá até raiva ! Mas o depois tem sido bem depois do depois ..: 3000 mortes em 24 hs ?

E se todos tivessem sido vacinados?

E se todos tivessem respeitado distanciamento?

E se os governantes fossem o exemplo que muitos precisam ?

Ahh seria diferente … a esperança ia embora, teria cumprido a sua missão. Entretanto um país deve viver de esperança ou de realizações ? Talvez dos dois … mas de mãos juntas … Vacinada? Não. Só quando 200 milhões estiverem vacinados. Uma morte. Uma vacina.

O Último Beijo

Era o último e não sabia … e por não saber ofereci meu rosto como sempre fiz e encostei minha boca no outro tão rápido que beijei o ar…Depois disso … nada mais foi igual … minhas mãos cansaram de procurar outras mãos … e meus lábios se esconderam… Os sorrisos sumiram das ruas …e os olhos passaram a ser nossos guardiões. Nunca vi tanto como agora … e nas visões que me acompanharam a indiferença foi a pior … olhares esquivos diante da dor … mas tantos outros comovidos … Olhos que se fecharam para sempre e não puderem chegar até aqui …no último dia do ano … E o ar … carregado de beijos deve voltar um dia e que seja logo… que os anos sejam dias e que os dias sejam horas e as horas minutos e os minutos segundos … e tendo só segundos não percebamos o tempo como inimigo … apenas como o tempo .. e em segundos o último beijo será o primeiro Kátia Oddone Del Porto 32/12/2020

O meu Natal

O meu Natal …

Um ano de ondas … sobe e desce … na balança da infância tudo era mais fácil … Alguém nos empurrava e vinha o frio na barriga ( tão esperado), as mãos para o alto e o grito no final … depois um pulo … e … às vezes uma queda … “ Do chão não passa …” Mas … as ondas desse ano, levaram muitos embora da vida terrena e ficaram no chão … levaram muitos sonhos e projetos …. trouxeram fome, medo, dor, sensação de abandono … expuseram o egoísmo e tb a solidariedade… nos cansamos …e o frio na barriga continuou em nós … sem o grito final de alegria. Agora precisamos rever quem somos, não teremos como escapar de nós mesmos … das nossas ideias, das nossas casas, das nossas máscaras … e isso pode ser muito bom ! Bom se soubermos aprender sobre persistência, sobre esperança, sobre olhar o mundo como nosso … Nunca o mundo foi tão nosso como nesse ano ! Que possamos lembrar que Deus existe. Existe antes de qualquer religião. Existe antes de qualquer filosofia. Existe antes da ciência. Existe antes mesmo dele existir. Isso é mistério, é milagre, é fé Deus não briga com os homens. E para os que não conseguem lembrar de Deus pq não o conheceram, desejo que olhem para Ele. É só olhar. E Natal, nascimento … é olhar … é não desistir de olhar .. é olhar cada vez mais … e depois de tanto olhar … certamente … o sentido da vida e da morte não serão os mesmos. Virá a alegria, não a da balança da infância … que passa rápido … a alegria que não vai embora …
Feliz Natal !!
Katia R Oddone Del Porto,24/12/2020

Uma bomba chamada Covid 19

Eu esperava o final do mundo como quem espera uma bicicleta que não poderá ganhar … postergava esse final … pensava: um dia pode acontecer ! Um dia poderei pedalar … Mas o final do mundo não é o final de tudo … demorei para entender ! Entender como é subjetivo o significado dos términos … sejam grandes ou pequenos …totais ou parciais … Ouço bombas caindo por toda parte … e não sei onde caem e quem morre… quem vive … quem sofre quem não sofre …uma bomba invisível e inesperada… Desço as escadas do meu pensamento e lá no coração vejo melhor … e o que vejo ? Vejo sirenes de ambulâncias e faróis piscando para bares lotados e resorts cheios de pessoas protegidas pela crença de que com elas nada acontece … Vejo pessoas encolhidas nos ônibus e no metrôs desviando os rostos daqueles que sem máscaras usam máscaras que escondem desrespeito … Vejo colegas exaustos de rituais para não se contaminarem … Vejo o trem turístico lotado …lotado de últimos sonhos … lotado da ideia de que é melhor que o último suspiro seja um passeio ou uma embriaguez

E me pergunto: O que é ser jovem ? O que é um ano? O que é estar ali ou aqui, se tudo sempre será provisório, temporário, dentro ou fora de uma pandemia ? Querer viver ou não querer morrer se equivalem … um ano ou 30 anos se equivalem … pq a vida é isso: é um minutinho ali na esquina … ou horas ali bem longe … mas é tempo, sempre é tempo … Tempo de vida não temos como calcular … mas temos como não acreditar que perdemos tempo ao nos preservar e ao preservar outras pessoas .. e que perdemos tempo quando não olhamos em frente e colocamos o sentido de nossa existência em tudo que nos falta. Sempre faltará algo. A pandemia só mostrou que a falta existe e que tentar preenche -la não é um trabalho pontual. Kátia R Oddone Del Porto